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“Brasil é um gigante adormecido no setor nuclear mundial com grande potencial”, afirma diretor de multinacional russa

Entrevista de Ivan Dybov ao site Agro na Bahia, 24/04/26

Em entrevista exclusiva ao site Agro na Bahia, Ivan Dybov, diretor da Rosatom América Latina, afirmou que o Brasil é um gigante adormecido no setor nuclear mundial, ressaltando o potencial do país para a expansão da energia nuclear. O executivo destacou a atuação estratégica da estatal russa e o potencial da nação verde-amarela na área, principalmente no que tange aos projetos industriais (mineração e metalurgia).

Dybov participou do iBEM 2026 (The International Meeting on Brazil’s Energy Market / Encontro Internacional sobre o Mercado de Energia do Brasil), realizado em março deste ano, no Centro de Convenções Salvador, na Bahia. 

Durante o evento, que é uma das principais plataformas de discussão sobre transição energética na América Latina, o diretor da gigante russa multissetorial e líder mundial em tecnologias nucleares, sediada em Moscou, defendeu que a energia nuclear deve ser parte de um sistema amplo, integrando a geração, o ciclo do combustível e o desenvolvimento tecnológico.

Na entrevista exclusiva para o Agro na Bahia, Dybov destacou o interesse da Rosatom em trazer a tecnologia de pequenos reatores modulares (SMRs) para o Brasil, especialmente para aplicações em regiões isoladas, como a Amazônia, ou em programas vinculados ao minério e à área metalúrgica.

Ele também frisou a importância de parcerias locais. O diretor da Rosatom assegurou o reforço do ato de cooperação com o Brasil no ciclo do combustível nuclear, incluindo a conversão de urânio brasileiro e a medicina nuclear. 

Na conversa estabelecida com o site Agro na Bahia, Dybov esclareceu com mais detalhes o que foi apresentado pela Rosatom no iBEM 2026, evento que focou no mercado híbrido de energia, conectando fontes renováveis e convencionais de baixo carbono. Confira a entrevista abaixo em formato de ping pong:

Site Agro na Bahia – Por que é importante para a Rosatom participar justamente da iBEM, em Salvador?

Ivan Dybov – A iBEM é uma plataforma em que a energia é discutida de forma abrangente, e é exatamente por isso que ela é importante para nós. Hoje, a Rosatom é um dos poucos players do mercado nuclear global capaz de oferecer aos parceiros uma solução completa para todo o ciclo de vida da energia nuclear. Trata-se de um acompanhamento integral do projeto de uma usina nuclear, do projeto e da construção das unidades geradoras ao fornecimento de combustível nuclear, serviços de manutenção, gestão do combustível nuclear irradiado e posterior descomissionamento das instalações.

Para o Brasil, que já possui usinas nucleares em operação, isso não é apenas uma questão de fornecimento atual, mas de sustentabilidade estratégica de toda a infraestrutura nuclear para os próximos anos. A confiabilidade das entregas, a integração tecnológica de todas as etapas e a previsibilidade da cooperação ao longo de décadas tornaram-se hoje alguns dos principais fatores na escolha de um parceiro.

Ao mesmo tempo, a Rosatom trabalha de forma consistente com seus parceiros também no desenvolvimento da base de recursos minerais. Entendemos que o futuro sustentável da energia nuclear é inviável sem uma postura responsável em relação aos recursos. À medida que a demanda por urânio cresce, ganham peso não apenas a mineração em si, mas também novas soluções tecnológicas que permitem usar o combustível nuclear de forma mais eficiente, aumentar a segurança do abastecimento e, no futuro, avançar no fechamento do ciclo do combustível nuclear.

Site Agro na Bahia – Falando especificamente do ciclo do combustível nuclear, o que a Rosatom já faz hoje no Brasil?

Ivan Dybov – O Brasil é um país em que a agenda nuclear, há muito tempo, não se resume apenas à operação de duas unidades geradoras em funcionamento. Há uma base própria de recursos, uma indústria forte, interesse crescente em novas soluções energéticas e uma discussão cada vez mais densa sobre o papel do país no ciclo do combustível nuclear. Isso fica especialmente claro na Bahia, por causa da região de Caetité, onde historicamente se concentra a principal base ativa de mineração de urânio do país.

A Rosatom já atua no Brasil há vários anos. Nosso centro regional no Rio de Janeiro foi inaugurado em 2015. Um dos blocos centrais da cooperação é justamente o ciclo do combustível nuclear. Hoje, a Rosatom fornece urânio enriquecido para a usina de Angra, e o contrato vigente cobre 100 por cento da demanda da central.

Além disso, avança a cooperação em conversão e enriquecimento do urânio brasileiro, ou seja, nas etapas que ligam a extração da matéria-prima à produção do combustível nuclear acabado. Para o Brasil, isso não é apenas a contratação de um serviço isolado, mas o fortalecimento de toda a cadeia de combustível. O país passa a ter acesso a capacidades tecnológicas globais em uma das etapas mais sensíveis do ciclo e, ao mesmo tempo, reforça a base para o desenvolvimento futuro de sua própria infraestrutura nuclear.

Site Agro na Bahia – Em um sentido mais amplo, para além dos contratos atuais, quais frentes de cooperação a Rosatom considera mais promissoras para o Brasil?

Ivan Dybov – Nossa abordagem é oferecer não um produto isolado, mas soluções para todo o ciclo de vida da energia nuclear. Isso pode incluir geração, abastecimento de combustível, serviços e áreas ligadas à sustentabilidade de todo o setor.

No campo da geração, a Rosatom hoje é líder mundial em número de projetos internacionais de usinas nucleares. O portfólio internacional da empresa inclui 41 unidades geradoras em 11 países, em diferentes estágios de implementação.

Trabalhamos tanto com grandes usinas quanto com soluções modulares de pequeno porte, escolhendo o formato mais adequado para cada necessidade. Um bom exemplo dessa abordagem é o Uzbequistão, onde a Rosatom está criando a primeira plataforma de seu tipo a combinar reatores de grande e de pequena potência. Isso mostra com clareza nosso princípio: não oferecer um modelo único para todos, mas montar uma configuração a partir das necessidades reais do cliente.

Para o Brasil, isso pode ser relevante em diferentes segmentos, desde grandes unidades para o sistema elétrico até pequenas soluções para territórios remotos, projetos industriais e de mineração, além da nova economia digital, incluindo data centers, em que são especialmente importantes a estabilidade, o preço previsível da energia e a proximidade da fonte de geração.

Outra frente muito importante é a gestão do combustível nuclear irradiado e dos resíduos radioativos. Esse é justamente o tema que com frequência aparece como principal argumento contrário ao desenvolvimento da energia nuclear. Para nós, porém, é fundamental deixar claro que não se trata de um problema sem solução, mas de uma área em que já existem soluções tecnologicamente maduras. A Rosatom possui um conjunto completo de competências, do armazenamento e transporte seguros ao reprocessamento e à reinserção de materiais valiosos no ciclo do combustível. Ou seja, não se trata apenas de isolar resíduos, mas de uma gestão mais racional e responsável dos recursos. Por isso, um tema que muitas vezes é visto como fragilidade da energia nuclear, na prática, torna-se uma das provas de sua maturidade tecnológica.

Site Agro na Bahia – Em sua fala na iBEM, o senhor aborda a questão da mineração de urânio. Por que essa discussão se tornou especialmente atual agora, e por que ela é importante justamente para o Brasil e para a Bahia?

Ivan Dybov – Porque o mercado global de urânio realmente está entrando em uma nova fase. Segundo a projeção-base da Associação Nuclear Mundial, até 2040 a demanda por urânio deve mais do que dobrar, passando de, em média, 67 mil para 150 mil toneladas por ano. Já a partir do fim desta década, a demanda pode começar a superar a oferta, e a diferença pode chegar a dezenas de milhares de toneladas. Isso transforma a questão do abastecimento de matéria-prima em um tema estratégico para toda a indústria nuclear.

Ao mesmo tempo, não se trata de falta de recursos em si. A base global de recursos de urânio é estimada em cerca de oito milhões de toneladas e, em termos gerais, é suficiente para muitas décadas. O problema é outro. A participação das reservas de baixo custo e fácil extração vem diminuindo gradualmente. O setor é forçado a migrar para projetos mais complexos e caros, e isso exige tempo. Da descoberta de uma jazida ao início da produção industrial, normalmente passam de 10 a 15 anos. Depois do acidente de Fukushima, o mercado viveu um longo período de preços baixos, os investimentos em exploração diminuíram e, aproximadamente, 15 minas, com capacidade total em torno de 20 mil toneladas, foram paralisadas. Agora, o setor está basicamente correndo atrás dessa demanda represada.

Nessas condições, países com base própria de recursos ganham importância estratégica adicional. Para o Brasil e, em especial, para a Bahia, isso é relevante porque já existe uma base de urânio consolidada na região de Lagoa Real/Caetité. Com o crescimento da demanda global, já não se trata apenas de extração de matéria-prima, mas de uma participação mais ativa no ciclo do combustível nuclear e na arquitetura energética global. Por isso, a discussão sobre abordagens modernas para a mineração de urânio na Bahia está hoje diretamente ligada às perspectivas econômicas e industriais da região.

Site Agro na Bahia – Se falarmos de abordagens modernas para a mineração de urânio que podem ser relevantes para a Bahia, uma delas é a lixiviação subterrânea por poços. O que é essa tecnologia e por que ela desperta tanto interesse? É possível falar de perspectivas para o Brasil?

Ivan Dybov – O interesse por essa tecnologia é compreensível. Ela permite extrair urânio sem minas a céu aberto nem minas subterrâneas, ou seja, sem retirar a rocha para a superfície. Em vez de escavações, transporte de grandes volumes de minério, pilhas de rejeito e barragens de rejeitos, aplica-se outro modelo: um sistema de poços e circulação controlada de soluções no horizonte produtivo.

A tecnologia em si não é nova. Os primeiros projetos industriais surgiram ainda nas décadas de 1960 e 1970, na URSS e nos Estados Unidos, e nas últimas décadas ela se tornou o principal método de extração de urânio no mundo. Hoje, mais da metade do urânio mundial é produzida por esse método.

Na prática, são perfurados poços de injeção e de produção na formação geológica. Por alguns deles é injetada a solução lixiviante, que transforma o urânio em forma solúvel. Por outros, a solução produtiva é trazida à superfície, onde o urânio é extraído, e a solução, depois de purificada, retorna ao ciclo. Todo o processo ocorre em circuito fechado e sob controle permanente.

A tecnologia exige determinadas condições geológicas, como reservatórios arenosos permeáveis, saturados por águas subterrâneas e, o que é especialmente importante, isolamento natural do horizonte produtivo por camadas impermeáveis acima e abaixo. O princípio é simples: primeiro a geologia, depois a tecnologia.

Quando as condições são adequadas, as vantagens se tornam evidentes. Do ponto de vista econômico, a lixiviação subterrânea reduz os investimentos de capital, encurta o prazo de entrada em operação dos projetos e torna a infraestrutura mais compacta. Do ponto de vista ambiental, reduz a área de impacto na superfície, elimina os depósitos clássicos de estéril e rejeitos e permite monitoramento constante do estado do meio subterrâneo. Foi justamente a combinação desses fatores que transformou a técnica em um dos métodos mais demandados da mineração moderna de urânio.

Site Agro na Bahia – Em termos de experiência prática, até que ponto a tecnologia de lixiviação subterrânea por poços é escalável e qual é o histórico real da Rosatom nessa área? Existe potencial para aplicar essa experiência no Brasil?

Ivan Dybov – Aqui é importante destacar que não estamos falando de teoria, mas de uma tecnologia cuja escalabilidade já foi comprovada na prática. Nos últimos 15 anos, a produção de urânio no perímetro da Rosatom mais do que dobrou, passando de, aproximadamente, 3,7 mil toneladas para 8,6 mil toneladas em 2024, e a lixiviação subterrânea teve papel central nesse avanço.

Se observarmos a estrutura da produção, a participação do urânio obtido por esse método cresceu de 17 por cento para 88 por cento. Ou seja, a tecnologia deixou de ser complementar e passou a ser a base do modelo produtivo. Isso vale, sobretudo, para o Cazaquistão, onde a Rosatom desenvolve projetos em parceria com a Kazatomprom e onde a lixiviação subterrânea se tornou, na prática, padrão do setor.

Essa experiência mostra que a técnica não apenas permite desenvolver jazidas de forma eficiente, mas também ampliar a produção com flexibilidade, colocar novas áreas em operação por etapas e responder mais rapidamente às demandas do mercado. Para o Brasil e para a Bahia, tudo volta a depender da geologia, mas, em condições hidrogeológicas adequadas, a lixiviação subterrânea pode melhorar de forma sensível a economia dos projetos, reduzir a barreira de entrada, acelerar o início da produção e tornar o desenvolvimento das jazidas mais flexível.

Site Agro na Bahia – A Rosatom pode participar da implementação de tecnologias como essa, de lixiviação subterrânea, no Brasil?

Ivan Dybov – Há potencial para esse tipo de cooperação, e ele já começa a ganhar forma na prática. Hoje, a Rosatom está entre os maiores players globais do setor de urânio. A empresa figura entre as três primeiras do mundo em base de recursos e volume de produção e, como eu já disse, cerca de 88 por cento do urânio é extraído por lixiviação subterrânea, o que reflete a expertise acumulada justamente nessa tecnologia.

Há poucos dias, foi assinado o acordo de criação da joint venture Nadina Minerals entre a Uranium One Group, que integra a Rosatom, e a brasileira NBEPar, do grupo Diamante. A missão da empresa é desenvolver projetos no campo de minerais críticos e estratégicos no Brasil, incluindo exploração geológica e a posterior criação de empreendimentos produtivos modernos com uso de tecnologias avançadas.

Site Agro na Bahia – Falamos bastante sobre tecnologias e mercado. Mas, olhando de forma mais ampla, o que o desenvolvimento de projetos nucleares pode oferecer a uma região em termos de qualidade de vida, emprego e novas oportunidades?

Ivan Dybov Sempre gosto de citar uma fórmula simples: 1 dólar investido em um projeto nuclear gera cerca de 10 dólares para a economia da região por meio dos setores associados. É um dos multiplicadores mais altos da indústria. Esses projetos criam empregos, geram demanda por serviços de fornecedores locais, desenvolvem transporte, energia, educação, saúde e o setor de serviços. Em outras palavras, um projeto nuclear não é um objeto isolado, mas um polo de crescimento para toda uma região.

Ao mesmo tempo, o efeito das tecnologias nucleares não aparece apenas em grandes projetos de infraestrutura. Um dos exemplos mais claros é a medicina nuclear. A Rosatom fornece ao Brasil isótopos médicos por contratos de longo prazo, e esses produtos são usados no diagnóstico e no tratamento de doenças oncológicas e cardiovasculares. Para milhares de pacientes em todo o país, inclusive em regiões como a Bahia, isso significa diagnóstico e terapia mais acessíveis e confiáveis.

Outro ponto importante é o desenvolvimento do capital humano. O setor nuclear exige engenheiros qualificados, operadores, pesquisadores e professores. Por isso, em torno desses projetos cresce inevitavelmente a demanda por formação, cooperação com universidades e preparação de especialistas locais. No fim, trata-se não apenas de desenvolvimento industrial, mas da formação de um ambiente educacional e profissional sustentável, que permanece na região por muito tempo.

Site Agro na Bahia –  Dando sequência a esse tema, até que ponto o trabalho com jovens e a formação de especialistas são prioridade para a Rosatom?

Ivan Dybov – Para nós, isso é de fato uma prioridade, e a Rosatom desenvolve todo um sistema de programas internacionais educacionais e voltados à juventude, dos quais participantes brasileiros já tomam parte ativamente. Um exemplo é o Global HackAtom, uma competição internacional em que equipes resolvem desafios reais do setor em 24 horas. Em 2025, justamente uma equipe do Brasil, a TupiTech, formada por estudantes do Instituto Militar de Engenharia, venceu a final global. É um resultado muito revelador.

Há também projetos voltados a um público mais jovem. O Quebra-gelo do Conhecimento é um programa para estudantes do ensino médio cujos finalistas seguem para uma expedição ao Polo Norte em um quebra-gelo nuclear. No ano passado, pela primeira vez, participou um estudante do Brasil.

Para universitários e jovens profissionais, existem formatos mais estruturados, como o fórum Obninsk NEW, escolas educacionais e o programa Train the Trainers para professores. Além disso, há cotas estatais para estudo em universidades russas, o que representa uma oportunidade de obter formação especializada e experiência prática.

Para nós, é importante que não se trate de iniciativas pontuais, mas da formação de uma comunidade profissional. E vemos que o interesse por esses programas no Brasil cresce de forma estável, o que é um bom sinal tanto para o setor quanto para futuros projetos conjuntos.

Fonte: Agro na Bahia